1. Do Tédio da Rotina ao Charme Simples dos Quadrinhos
Um dos momentos mais entediantes da vida adulta é o deslocamento para o local de trabalho. Não à toa, desde os primórdios da Revolução Industrial, trabalhadores buscam formas de se entreter durante esse tempo de trajeto.
Atualmente, com os smartphones, as redes sociais e os serviços de streaming ocupam estes espaços de entretenimento. Porém, uma diversão pouco lembrada acaba se tornando justamente a mais simples: a revista em quadrinhos.
Os quadrinhos americanos, em especial os de super-heróis, sempre foram escritos como uma forma de entretenimento para momentos de ócio ou, em casos específicos, de aprendizagem. Em contrapartida, do outro lado do mundo, no Japão, seu equivalente — o mangá — mantém a tradição de ser uma diversão para o trabalhador, mesmo que de forma inconsciente.
Atualmente, no mercado, existem vários gêneros de mangás para diferentes públicos e gostos. A linguagem do quadrinho japonês permite uma leitura média de aproximadamente 24 segundos por página, além de se caracterizar em grande parte por imagens expressivas com o mínimo de texto presente em cada quadro.
A soma dessa velocidade com a quantidade de páginas presente em um mangá (aproximadamente 15 páginas por capítulo) permite que o leitor consiga, em um trajeto de cerca de uma hora de metrô, ler dois capítulos de seu Tankōbon, publicação que normalmente reúne de 7 a 12 capítulos de um mesmo título.
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2. Bakuman e a Magia do Entretenimento Sob Medida
Recentemente, comecei a ler no metrô, a caminho do trabalho, Bakuman, mangá de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, mesmos autores do sucesso mundial Death Note. A história gira em torno de dois jovens do colegial que decidem se tornar autores de mangá (mangakás) e, para isso, precisam lidar com a realidade (de certa forma glamourizada) da indústria de quadrinhos japonesa, a expressão da busca pelo sucesso e, é claro, os obstáculos que a vida de um artista pode proporcionar.
Como obra de entretenimento, Bakuman atinge seu objetivo principal; e, como leitura de transporte público, supera tal expectativa. É claro que, quando paramos para pensar na história, acabamos por encontrar alguns questionamentos:
- Como alguém com pouco treino em desenho se torna mestre naquela arte?
- Como alguém com pouca ou nenhuma experiência em escrever quadrinhos se torna o melhor roteirista possível?
- Por que a busca por dinheiro e os dilemas do artista são resumidos a simples competições de popularidade?
Esses detalhes, se pensados com cautela, podem diminuir o poder da história. Mas, por estarmos lendo somente para passar o tempo, abrimos mão da rigidez e abraçamos a simplicidade. O que acaba por revelar um dos maiores poderes dos quadrinhos japoneses.
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3. O Contexto Altera o Valor da Arte?
Bakuman é o exemplo mais intrigante de como o ambiente pode tornar uma história mais ou menos divertida. Se estivesse lendo este mangá em casa como um entretenimento de fim de semana, como um filme, uma série de televisão ou mesmo uma graphic novel premiada, eu me tornaria mais exigente com a história, os desenhos e, é claro, com a narrativa. Porém, por consumir durante o trajeto de ida e volta do trabalho, somente para passar o tempo, a história se torna tão confortável e divertida que acabo nem percebendo o trajeto e ainda relaxo de um dia estressante.
Desta forma, fica a pergunta: será que muitas músicas, filmes, séries e outras formas de entretenimento em geral só são vistas como boas ou ruins porque estão acompanhadas do ambiente errado?
Esta é uma reflexão para um outro momento.
Se você leu esta postagem até aqui, me diga: o que você mais gosta de consumir para se entreter no seu trajeto para o trabalho?
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