Desde que o cinema se tornou uma indústria nos Estados Unidos, principalmente com o surgimento de Hollywood, ela sempre gostou de se auto-homenagear, contando histórias de diretores, produtores e executivos que, dia e noite, trabalham para garantir que os filmes cheguem às telas. Assim, a ideia de uma comédia sobre um executivo de estúdio estrelada por Seth Rogen, à primeira vista, não parece ter nada de verdadeiramente original — pelo menos até você perceber que as piadas são, na verdade, críticas à indústria, à linguagem e ao corporativismo de um setor que vende sonhos, mas que, no fim do dia, como qualquer outro, precisa de lucro para sobreviver.
Na história da série, acompanhamos Matt Remick, o recém-nomeado chefe da produtora de filmes Continental Studios. Um autodeclarado cinéfilo, Matt se esforça para equilibrar os objetivos corporativos da Continental, em um cenário de entretenimento cada vez mais impulsionado por propriedades intelectuais, com sua própria ambição de produzir filmes de qualidade.
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O Dilema entre o Lucro e a Arte
Já no primeiro episódio, o protagonista enfrenta o dilema de criar um filme sobre o mascote de um produto. Enquanto o estúdio busca uma imagem comercial para atingir as crianças, ele acaba dividido quando Martin Scorsese aparece com um projeto dramático sobre um massacre que teria o produto como um dos pontos de catarse. Por mais que Matt queira realizar o filme do lendário diretor, ele opta por comprar o roteiro e engavetá-lo, para que a obra não prejudique seu projeto comercial — uma prática que, embora cômica na série, é bastante comum na realidade.
Metalinguagem e Crítica Social
Além disso, a série brinca com a ideia de executivos que aparecem nos sets de filmagem para “ajudar” a equipe, mas acabam atrapalhando ao tentar impor sua visão. A série mostra executivos em reuniões intermináveis, discutindo pautas sociais não por serem importantes, mas por medo de críticas que possam afetar a imagem do estúdio. Outro ponto é o uso da metalinguagem: um episódio que critica planos-sequência é gravado em plano-sequência; outro, inspirado nos clássicos do cinema noir, é realizado como se fosse um.
Talvez o episódio mais importante da primeira temporada seja justamente aquele que discute a relevância do cinema: se é de fato uma arte capaz de transformar vidas ou apenas um entretenimento vazio e descartável.
O estúdio ainda recebe diretores, atores e executivos reais, como o co-CEO da Netflix, Ted Sarandos, que interpreta a si em um episódio que critica e ironiza as grandes premiações.
Uma Hollywood Humanizada (e Patética)
Diferente de produções clássicas que retratavam os executivos de estúdios como imponentes, cruéis e visionários, a série da Apple TV aposta em uma abordagem mais humanizada, mostrando um personagem frágil, uma equipe disfuncional e, por vezes, atrapalhada. Se no passado Hollywood gostava de se apresentar ao mundo como o centro do cinema, onde erros não existiam, The Studio, principalmente devido à quantidade de elogios e prêmios, reforça uma nova imagem: a de uma indústria viva, mas ainda à sombra de seu passado, tentando se adaptar a um novo mundo sem realmente querer conhecê-lo. Por exemplo: O episódio discute se uma pessoa negra deveria dublar o personagem de uma animação, apenas para evitar acusações de racismo que poderiam prejudicar as ações da empresa. Enquanto ficam presos nessa discussão, ignoram problemas mais urgentes e relevantes para o próprio estúdio.
A Apple conseguiu, com maestria, criar um produto comercial e didático sobre como é a Hollywood dos dias atuais: seus egos e influências. Uma série que, além de divertida, quebra o imaginário de imponência construído ao longo de décadas e apresenta uma Hollywood do século XXI pela primeira vez. Agora resta esperar para saber se isso se manterá em uma próxima temporada, apesar de ainda não haver informações sobre uma continuação.
