A Ilusão da Permanência no Streaming
Se você é usuário de serviços de streaming, constantemente precisa lidar com a frustração de se apaixonar por um filme ou uma série e, dias depois, perceber que a obra não se encontra mais na plataforma. Um dos motivos para isto ocorrer se dá pelos contratos entre o serviço e as empresas que são detentoras dos direitos dos títulos. Um exemplo clássico disso são os 100 milhões de dólares pagos pela Netflix em 2018 apenas para manter Friends em seu catálogo por mais um ano.
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Por essas razões, os serviços de streaming começaram a investir pesado em produções próprias — uma forma de garantir conteúdo original sem a necessidade de negociar constantemente com outros estúdios (que, por sua vez, tornaram-se aos poucos donos de suas próprias plataformas). É neste contexto que se encontra The Crew (Pit Stop), série de comédia protagonizada por Kevin James.
O Caso The Crew e a Era dos Cancelamentos
A série é uma produção original Netflix e possui uma única temporada, girando em torno de uma equipe da NASCAR que acaba de ver a aposentadoria de seu fundador. Agora, os funcionários precisam lidar com os conflitos trazidos pela filha do antigo dono, uma jovem millennial focada em tecnologia que quer revitalizar a equipe e o próprio esporte. A produção de comédia foi cancelada em 2021, junto a outros títulos como Família em Concerto, Professor Iglesias e Amizade Dolorida.
Estima-se que a Netflix tenha produzido mais de 1.800 programas originais desde o seu primeiro show (Lilyhammer). Muitas dessas séries terminam sem um final ou mesmo uma conclusão narrativa para seus personagens.
Segundo o relatório The Show Must Go Off, que analisou o conteúdo televisivo lançado pelos oito maiores serviços de vídeo sob demanda dos Estados Unidos (Netflix, Disney+, Hulu, Prime Video, Max, Apple TV+, Paramount+ e Peacock) entre os anos de 2020 e 2023, as plataformas de streaming cancelam, em média, 12,2% de todas as suas produções originais. Todavia, esse reflexo de cancelamentos, por mais aparente que seja, não se distingue tanto da produção da TV linear, que tem uma taxa de cancelamento de 10,8%.
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Por que o Streaming Ficou com a Fama de Vilão?
Se os serviços de streaming cancelam tanto quanto a televisão aberta, por que temos a impressão de que o streaming é o grande vilão?
Voltando ao exemplo de The Crew: a série, apesar de ter problemas graves — sendo o pior deles o fato de ser uma obra sobre uma equipe de corrida da NASCAR que em nenhum momento mostra uma corrida, focando apenas no humor de situação comum (sitcom), provavelmente encontraria seu público na TV aberta por meio de reprises infinitas e horários alternativos na grade de programação.
Nos serviços de streaming, a dinâmica é cruelmente diferente. Fatores como:
- O algoritmo da plataforma;
- O “boca a boca” virtual na semana de estreia;
- O engajamento em redes sociais;
- A validação de influenciadores digitais.
Tudo isso acaba servindo como a única ponte entre a obra e o público final. Por este motivo, empresas como a Disney+ vêm preferindo investir em continuações de filmes consagrados e na expansão de universos já criados, como as produções de Star Wars.
Nesse cenário, The Crew poderia ter se privilegiado de uma associação com a franquia de videogames de mesmo nome ou de uma presença maior das corridas da NASCAR na tela. Contudo, a forma como a série foi idealizada dificultaria sua continuidade para uma nova temporada de qualquer maneira.
O Fim das Reprises e o Espectador de Planilha
A nova era dos streamings criou uma base de imediatismo nas produções. Hoje, não existe mais espaço para o erro ou para o desenvolvimento lento ao se projetar uma série ou filme; tudo precisa ser quantificado e qualificado para atingir o público certo no menor tempo possível. Obras com potencial para se tornarem grandes hits culturais podem ser facilmente esquecidas e descartadas.
Se séries como Friends e Seinfeld são constantemente lembradas como fenômenos culturais que tiveram nas reprises da TV a oportunidade de conquistar e fidelizar o público, o que sobra para o espectador em um mundo algorítmico e sem reprises?
Os streamings surgiram com a promessa de trazer o direito de escolha e a liberdade para o consumidor, a realidade atual é que a cultura de massa se tornou apenas mais um dado qualquer em uma planilha corporativa.
