Se existe uma emissora de televisão que se orgulha de suas produções, esta é a HBO. A gigante da TV a cabo americana conseguiu remodelar o que o público entendia como “televisão de qualidade”, trazendo personagens falhos e humanos, mesmo em momentos nos quais o espectador não deveria torcer por eles.
Família Soprano guiou os espectadores a torcerem por um líder da máfia e, mais recentemente, Succession fez o público torcer por adultos mimados, filhos de um pai abusivo. Em ambas as séries, a moralidade e as motivações dos protagonistas são guiadas muito mais por ego e vaidade do que simplesmente por senso ético.
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O Trono de Vidro da Família Roy
Succession gira em torno da família Roy, uma linhagem bilionária do ramo das comunicações, livremente inspirada pela família Murdoch (dona da Fox News). Ao longo da trama, somos apresentados ao patriarca Logan Roy: um homem sem escrúpulos que usa sua empresa para perpetuar seu poder. Em paralelo, seus filhos querem herdar, a todo custo, seu lugar no “trono”.
Porém, vemos que esses filhos se tornaram adultos disfuncionais e problemáticos; nenhum deles seria apto a administrar tal império. Por sua vez, Logan é um homem amoral que, no fim do dia, gere sua empresa com competência, sendo ela sua verdadeira vida. Assim como em Sopranos, o fim da história não é o mais “satisfatório”, porém é o correto para concluir a jornada destes personagens. Mas por que sentimos um vazio ao vê-los falhar?
Do Pica-Pau ao Logan Roy: A Vilania que Amamos
Talvez a resposta esteja na nossa infância, com os personagens que moldaram gerações: Pica-Pau, Pato Donald e Pernalonga.
Pica-Pau: Na sua primeira fase, era um emissário do caos que abusava da inteligência para conseguir vantagens. Pato Donald: Um briguento enfezado que arranjava estresse até nos momentos de lazer. Pernalonga: A personificação da malandragem, querendo se dar bem a qualquer custo.
Se fossem pessoas reais, seriam vistos como vilões. A diferença entre esses personagens antropomórficos e os protagonistas da HBO está em um ponto comum: o humor.
O Humor como Lente da Fragilidade
Enquanto nas animações o humor exalta a sagacidade, em Succession ele é a chave para mostrar a destruição psicológica. O episódio da terceira temporada, “Too Much Birthday”, exemplifica isso: Kendall Roy comemora 40 anos em uma festa temática que é uma representação conturbada dos sonhos de uma criança. Ao longo da noite, ele recebe deboches, mas é ao não encontrar o presente de seus filhos que o personagem desaba.
Nesse momento, Kendall deixa de ser um “intocável” e vira um reflexo do espectador: um ser frágil que precisa manter uma imagem forte perante o público.
Nas séries da HBO, o humor permite olhar para os personagens não como vilões imponentes, mas como figuras patéticas ou dignas de pena.
A Meritocracia do Privilégio
Se nos desenhos a inteligência ajuda o protagonista a prosperar, em Succession essa meritocracia não existe. A “colcha de privilégios” é tão intensa que os personagens não conseguem identificá-la. Quando têm a chance de evoluir, o medo de perder o conforto os assusta. Vencer, para eles, torna-se o grande ato de perder.
Os desenhos clássicos são representações de um futuro que queremos alcançar; Succession e Família Soprano são uma catarse da realidade. Percebemos que, ao chegarmos no nosso objetivo, estaremos mudados, e o alvo talvez não fosse o que realmente almejávamos.
Torcemos por eles não porque aprovamos seus atos, mas porque sua fragilidade os torna espelhos desconfortáveis da nossa própria natureza. Pica-Pau nos ensinou a rir do caos e a HBO nos ensinou a sofrer por ele. No fim, a linha entre o herói da infância e o vilão da vida adulta é apenas uma questão de perspectiva.
Referencia bibliográfica – Homens difíceis: Os bastidores do processo criativo de Breaking Bad, Família Soprano, Mad Men e outras séries revolucionárias
